Como ler a linha digitável de um boleto

O que cada bloco de números do boleto representa, como conferir banco, valor e vencimento sem abrir o arquivo, e como identificar um boleto adulterado.

A linha digitável de um boleto parece um amontoado de números, mas é um formato totalmente estruturado. Saber lê-la permite conferir banco, valor e vencimento em segundos — e é a defesa mais simples contra boletos adulterados.

Este guia descreve o boleto bancário de 47 dígitos. Contas de concessionária, tributos e alguns convênios usam o boleto de arrecadação, que tem 48 dígitos e começa com 8 — estrutura diferente, com regras próprias.

Duas representações do mesmo dado

Todo boleto carrega a mesma informação em dois formatos:

  • O código de barras, com 44 dígitos, que é a forma canônica lida pelo scanner;
  • A linha digitável, com 47 dígitos, feita para digitação humana.

A linha digitável não é uma informação diferente — é o mesmo código de barras reordenado, quebrado em blocos menores e com 3 dígitos verificadores adicionais inseridos, um por bloco. Esses verificadores existem para pegar erro de digitação antes que o pagamento seja processado.

É por isso que a conversão entre os dois formatos é reversível: descartando os verificadores de campo e reordenando os blocos, você recupera exatamente os 44 dígitos originais.

Os cinco campos

Uma linha digitável costuma ser exibida assim:

34191.79001 01043.510047 91020.150008 8 91230000103790
  campo 1      campo 2       campo 3    4     campo 5

Campo 1 — 9 dígitos mais 1 verificador

Os três primeiros dígitos são o código do banco. No exemplo, 341 é o Itaú. O quarto dígito é o código da moeda: 9 significa real. Os cinco seguintes são o começo do campo livre. Fecha com um dígito verificador calculado por módulo 10.

A lista de bancos permite identificar qualquer código. Alguns comuns: 001 Banco do Brasil, 033 Santander, 104 Caixa, 237 Bradesco, 341 Itaú, 260 Nubank, 077 Inter.

Campos 2 e 3 — 10 dígitos mais 1 verificador cada

Continuação do campo livre, cujo conteúdo cada banco define do seu jeito: agência, conta, carteira, nosso número. Não há padronização entre instituições, então esses dígitos só fazem sentido para o banco emissor. Cada campo tem seu verificador por módulo 10.

Campo 4 — 1 dígito

O dígito verificador geral do código de barras, calculado por módulo 11 sobre os outros 43 dígitos. É o verificador mais importante: ele valida o código inteiro, não apenas um bloco.

Campo 5 — 14 dígitos

O bloco mais útil para conferência manual:

  • 4 dígitos de fator de vencimento
  • 10 dígitos de valor

Lendo valor e vencimento

O valor são os últimos 10 dígitos, em centavos, sem separador. No exemplo, 0000103790 equivale a R$ 1.037,90.

Boletos sem valor definido — usados em cobranças em que o valor é acertado no pagamento — trazem 0000000000 nessa posição.

O fator de vencimento são os 4 dígitos anteriores: o número de dias corridos desde uma data-base fixa.

Aqui há uma particularidade recente. A data-base original era 07/10/1997, e o contador chegou ao limite de 9999 em 21/02/2025. Conforme o Comunicado FEBRABAN FB-009/2023, o fator recomeçou em 1000 tendo 21/02/2025 como nova data-base. Boletos emitidos antes e depois dessa virada usam referências diferentes — algo que quebrou sistemas legados que assumiam a data de 1997 como constante.

O fator 0000 indica boleto sem vencimento definido.

O validador de boleto faz essa decodificação e confere os quatro dígitos verificadores de uma vez.

Os dois algoritmos de verificação

Módulo 10 valida os campos 1, 2 e 3. É o mesmo algoritmo de Luhn usado em cartão de crédito: percorre os dígitos da direita para a esquerda alternando pesos 2 e 1, e quando o produto passa de 9, somam-se os seus algarismos. O verificador é o que completa a soma até o próximo múltiplo de 10.

Módulo 11 valida o código de barras inteiro, no campo 4. Percorre da direita para a esquerda com pesos cíclicos de 2 a 9, e o dígito é 11 − (soma mod 11). Resultados 0, 10 ou 11 são tratados como 1 por convenção.

A combinação dos dois torna praticamente impossível que um erro de digitação produza uma linha válida por acaso.

Identificando um boleto adulterado

O golpe mais comum consiste em enviar um boleto falso — geralmente por e-mail, imitando um fornecedor legítimo — com a linha digitável apontando para a conta do golpista. O layout, o logo e o valor impresso permanecem convincentes.

O que confere em segundos:

  1. Os três primeiros dígitos identificam o banco. Se a empresa sempre cobra por um banco e o boleto chega por outro, é sinal de alerta.
  2. O valor nos últimos 10 dígitos precisa bater com o valor impresso no boleto. Divergência entre os dois é fraude confirmada — não existe motivo legítimo para isso.
  3. O fator de vencimento precisa corresponder à data impressa.
  4. O beneficiário exibido pelo aplicativo do banco, antes da confirmação, precisa ser a empresa que você espera pagar. Este é o teste mais confiável de todos: o nome vem da instituição financeira, não do arquivo recebido.

Vale acrescentar duas práticas: desconfiar de boletos recebidos por e-mail não solicitado, ainda que pareçam vir de um fornecedor conhecido, e confirmar por telefone quando o valor for relevante.

Boletos são registrados na Nova Plataforma de Cobrança da FEBRABAN desde 2018, o que permite ao banco recusar títulos não registrados — mas isso não impede que um boleto legítimo seja emitido por um terceiro mal-intencionado com dados próprios.

Este guia tem finalidade educativa. A estrutura descrita segue o padrão FEBRABAN para boletos bancários de cobrança; layouts de arrecadação e convênios específicos seguem especificações próprias.

Ferramentas citadas neste guia

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